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Apagão de engenheiros metalurgistas e de minas no Brasil preocupa empresas e universidades

77% das empresas da área de metalurgia e mineração, com atuação no país, relatam dificuldades na contratação de engenheiros destas modalidades

Fonte: Assessoria ABM

Acompanhando a demanda mundial por aço — que cresceu 1% em 2023, segundo o Worldsteel — a Indústria Metalúrgica brasileira registrou no ano passado um aumento percentual em sua produção, que corresponde à superação do patamar pré-pandemia em 0,7%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado repercute na crescente abertura de vagas para atuação no setor, que anualmente gera cerca de 20 mil empregos no país, conforme dados do Data MPE Brasil, além de impactar positivamente a faixa salarial de colaboradores da área, que recebem em média três vezes mais do que a remuneração média dos brasileiros, como aponta a plataforma de empregabilidade Glassdoor.

Ainda que estejam integradas a um cenário promissor em disponibilização de vagas e promoção de renda, empresas do setor metalúrgico nacional têm enfrentado uma escassez de mão de obra qualificada. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 77% das metalúrgicas que atuam no país relatam ter dificuldade para preencher vagas de engenheiros, o que impacta a produção de 97% delas.

De acordo com o Professor Dr. Antônio Cezar Faria Vilela, docente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Minas, Metalúrgica e Materiais da UFRGS e membro do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), a preocupação da Indústria com essa temática é compartilhada com a Academia.

“Nós, que somos professores de disciplinas ligadas à Metalurgia, temos testemunhado uma triste realidade na qual o fechamento de cursos da área se tornou algo frequente. Há turmas em que temos dois alunos chegando à etapa de conclusão da faculdade e há vestibulares em que temos mais vagas do que estudantes interessados em preenchê-las. Isso é bastante preocupante porque estamos falando de um setor que representa a base para produção de itens essenciais à infraestrutura nacional e que é responsável por 3,1% do PIB brasileiro. Com isso, pode-se dizer que estamos dando passos iniciais em direção a um apagão de engenheiros metalúrgicos”, destaca o docente.

Conforme ressalta Vilela, a escassez enfrentada atualmente pela Indústria Metalúrgica tende a se tornar mais latente nos próximos anos, tendo em vista que já há mais colaboradores no setor com mais de 50 anos do que com menos de 25, como revela o levantamento da Data MPE Brasil.

“Muitos profissionais experientes estão se aposentando, criando uma necessidade urgente de transferir conhecimento e atrair novas gerações. Por isso, é necessário desenvolver programas de educação e treinamento específicos, além de promover o setor e suas oportunidades de carreira”, aponta Ivani da Silveira, Diretora de Recursos Humanos da Ternium.

Iniciativas para superar o apagão de profissionais

Ao perceber as mudanças no cenário de educação relacionadas ao setor minero-metalúrgico, o Professor Dr. Geraldo Lúcio de Faria passou a investigar as possíveis causas da falta de interesse das gerações mais novas pelo setor e quais ações poderiam ser tomadas, tanto pela academia quanto pela indústria. “Por meio do levantamento realizado, constatamos que ao longo dos últimos 10 anos o jovem está perdendo o interesse pela área de engenharia e o número de vagas preenchidas nos cursos tem caído vertiginosamente, sobretudo nos cursos de engenharia metalúrgica. Por isso é fundamental mudar a imagem do setor minero-metalúrgico para essa nova geração que está chegando e apresentar uma nova visão para os estudantes, ainda no Ensino Médio, pois são eles os futuros ingressos nas universidades. E isso não é apenas uma função da universidade, mas também das grandes empresas do setor, que precisam fazer um marketing positivo de oportunidades e plano de carreira”, explica o docente. O estudo conduzido pelo Dr. Faria, que contou com a participação dos professores Johne Peixoto e Rodrigo Porcaro e do técnico administrativo Philipe Castro, foi apresentado na plenária Desafios na formação e retenção de engenheiros para o setor minero-metalúrgico, durante a 7ª edição da ABM Week, em 2023.

Este ano, com o objetivo de unir empresas e instituições acadêmicas em um espaço propício a debates e à busca por soluções para tentar reverter a situação, a Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração lança o Grupo de Trabalho “Atração e retenção de engenheiros para o setor minero-metalúrgico”.

Segundo Valdomiro Roman da Silva, Diretor de Operações da ABM, a Associação sempre teve como uma de suas características e um diferencial, a integração entre empresas e academia, e a criação deste Grupo de Trabalho é uma forma de colocar frente a frente as maiores universidades brasileiras, responsáveis pela formação dos futuros profissionais e algumas das maiores empresas contratantes.

“Em cima de dados concretos, vamos debater e implementar um plano de ações abrangente, voltado não só para os estudantes de ensino médio e graduação, como para as próprias empresas e universidades, que devem fazer uma análise crítica de seus processos, para que possamos reverter a falta de interesse dos estudantes por estas carreiras”, atesta o diretor.

A maior proximidade entre indústria e instituições de ensino envolve, entre outras iniciativas, uma atualização na grade curricular dos cursos de engenharia, conforme sugere o professor Faria e profissionais da indústria. “Pra mim, o primeiro ponto é darmos um passo atrás e tentar efetivamente mexer na grade curricular junto às universidades, pois apenas com um trabalho em conjunto entre indústria e academia será possível atrair jovens para a área”, acredita Gabriela Oliveira Martins, Gerente Talent Acquisition da Gerdau. Silveira, da Ternium, complementa: “É preciso alinhar os currículos às demandas do mercado e às tecnologias emergentes para preparar a nova geração de profissionais para os desafios da indústria. Necessário também desenvolver parcerias educacionais e iniciativas de P&D”.

A flexibilidade do trabalho e a remuneração dos engenheiros foram mencionados como pontos que precisam ser revistos para atrair mais talentos para a área. “Precisamos quebrar alguns paradigmas e um deles é relacionado à flexibilidade dos engenheiros. Obviamente não é possível que o trabalho seja realizado 100% em home office, pois é necessário estar na planta, mas algumas flexibilidades podem ser feitas e isso pode aumentar a nossa atração perante os jovens. Outro ponto: se estamos à procura de engenheiros metalúrgicos e engenheiros para mineradoras, eles precisam ter uma remuneração mais atrativa no mercado, já que outras indústrias, como da tecnologia, estão disputando esses profissionais com melhores propostas”, sugere Martins, da Gerdau.

Os profissionais consultados destacam que o reposicionamento do setor no mercado também pode atrair mais jovens. “É preciso desmistificar o setor como um negócio ultrapassado e demonstrar os investimentos em tecnologia e a importância do aço na vida das pessoas, aproximando, assim, os atuais estudantes da realidade do setor minero-metalúrgico”, sugere Juliana Almeida, Gerente de Pessoas: Atração, Carreira e Cultura, da ArcelorMittal.

“Comparando com outros setores, como o Agro, que criou parcerias para aumentar sua visibilidade, a metalurgia carece de um posicionamento atrativo e sustentável. A metalurgia é vista como uma indústria antiga, o que afeta a atratividade da área. Além disso, há preocupações sobre os impactos socioambientais que as atividades do setor geram. Por isso, é crucial promover a importância, os desafios, as inovações e a sustentabilidade oferecidas pelo setor, implementar programas de conscientização e desenvolver atividades STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para aproximar os jovens da indústria, como na organização canadense ACTUA e na Escola Técnica Roberto Rocca, e destacar as oportunidades de carreira e oferecer estágios atrativos”, lista Silveira, da Ternium.

Veja o artigo na integra: Apagão de engenheiros metalurgistas e de minas no Brasil preocupa empresas e universidades | ABM Brasil

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